Meio ambiente
Os passos em torno da praça Coronel Pedro Osório jamais são uma mera caminhada para chegar de um ponto a outro. Caracterizam um passeio através da história, uma preservação do passado conhecida como Centro Histórico. É nesse roteiro turístico já tão rotineiro para os pelotenses que persiste a imensidão da Casa nº 2, o Casarão 2. Construído em 1830, o local onde hoje funciona a Secretaria Municipal de Cultura (Secult) há uma década passava por uma reforma completa. Hoje, porém, as estruturas interna e externa apresentam uma série de necessidades de restauro.
Um desafio diário quando se trata de patrimônio histórico, explicam o secretário de Cultura, Giorgio Ronna, a gerente de Memória e Patrimônio Gisela Frattini, e o arquiteto da Secult Fábio Caetano. Tanto pela rua Lobo da Costa quanto pela Félix da Cunha as patologias podem ser facilmente percebidas, com descasques por toda parte da pintura. Nas janelas, a situação também chama atenção pelos desgastes, a maioria causada por cupins. No interior, mais precisamente nas salas de exposição, a situação das paredes é ainda pior.
As próprias condições do ambiente, como chuva e sol, e da arquitetura do imóvel, proporcionam os impasses. De acordo com Caetano, a falta de um porão elevado acaba por contribuir com a umidade que se alastra. "O porão tinha uma função muito importante nessas casas ecléticas: ventilar a parte inferior e não permitir que a umidade ascendesse tanto na parede." Mas, explica, o Casarão 2 não tem esta característica porque o estilo era colonial. Foi uma reforma na fachada que tentou transformá-lo em estilo eclético para ficar semelhante às casas laterais.
Juntamente com outros prédios do acervo patrimonial pelotense, o Casarão 2 foi reformado com recursos do programa Monumenta. Na cobertura, as telhas de cerâmica foram substituídas e uma subcobertura até então inexistente foi colocada. Todos os rebocos foram restaurados, os forros de estuque recuperados e as pinturas externas e internas refeitas. Também passaram por reparos as escaiolas, os pisos, as escadas e as louças dos banheiros.
Desgaste
Mas por que a pintura, então, apresenta tantos problemas? Segundo Caetano, em restauração geralmente usa-se pintura com cal. Isso permite que a alvenaria e os rebocos possam respirar. O próprio revestimento da casa já é feito com argamassa de cal, técnica construtiva diferente da usada hoje. Este tipo de pintura possibilita diminuir a aparência de umidade nas fachadas. Contudo, ela é dispendiosa. São necessárias, no mínimo, sete demãos e depois ainda é preciso fazer uma repintura anual. Tudo isso deixou a situação complexa e a técnica virou um impasse.
Por indicação do Monumenta, optou-se por utilizar o silicato, que havia dado certo em alguns projetos de restauração. Mas houve um problema. O silicato não tem uma boa aderência quando há cimento na composição da argamassa e em intervenções anteriores foi colocado cimento. Como a restauração só foi feita nas partes danificadas, não foi removido todo o reboco da argamassa. Recuperou-se parte dela, pois o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) considerou até a argamassa como histórica e, por isso, não poderia ser perdida.
Solução e manutenções
Atualmente estuda-se junto ao Iphan o problema de umidade ascendente da casa. Existem, até então, duas opções. Pode ser feito um trabalho de drenagem, que é ideal para quando há um porão, ou adquirir um equipamento capaz de retornar a umidade para o solo por ondas magnéticas. Ele parece ser o mais indicado, mas ainda não há informações sobre a eficiência em prédios históricos no Brasil. Não há um prazo para esta solução, mas as projeções são para que possa acontecer no início do próximo ano. Para poder fazer uma nova pintura é necessário antes combater a umidade. Mas, antes ainda, priorizar as manutenções.
Este ano elas viraram cronograma. Uma reforma em patrimônio tombado precisa de autorização do Iphan, mas a manutenção, segundo Gisela, é obrigação do município. Alguns casos recentes no Casarão 2 são a troca de uma rampa de madeira para acesso de pessoas com deficiência por uma de ferro, a limpeza das calhas, troca de telhas, reparos nas camarinhas e nas escaiolas. Para as esquadrias já está sendo feito orçamento com carpinteiros. Estas manutenções, por virem de verba municipal, acabam não sendo muito grandes. Este tipo de reparo não precisa ser autorizado pelo Instituto, mas, mesmo assim, deve ser comunicado e registrado em fotos.
O secretário diz que, ao participar do Encontro Nacional de Cidades Históricas, percebeu que todos os municípios do país sofrem por falta de recursos para manutenção. Ele ainda adianta: "Uma das demandas que vão ser entregues a presidente Dilma pelos prefeitos das cidades históricas é de que haja a criação de um repasse federal diretamente para que as cidades possam aplicar na manutenção dos prédios". Ainda segundo ele, esta verba deve vir de uma porcentagem da Loteria.
Monumenta e ações em Pelotas
O Monumenta foi um programa desenvolvido em cidades de todo o Brasil, entre elas Pelotas. Os projetos daqui foram encaminhados e, pelo rico acervo histórico, a cidade foi selecionada. O convênio do programa com o município durou mais de dez anos, de julho de 2002 até dezembro de 2012. Com prioridade no Centro Histórico, a obra de arranque em Pelotas foi a restauração da Fonte das Nereidas na praça Coronel Pedro Osório. A principal diferença entre o Monumenta e o PAC é que o primeiro tinha contrapartida do município.
Além do Casarão 2 e da Fonte das Nereidas, locais como o Grande Hotel, o Paço Municipal e o Casarão 6 também fizeram parte das ações do Monumenta, que, ao todo, recuperou 12 bens por iniciativa pública e privada. Mas, além das revitalizações, o programa teve diversas iniciativas na área de educação patrimonial. Houve o lançamento do Manual do usuário de imóveis inventariados e livros didáticos sobre a história de Pelotas para séries iniciais, projeto de apoio à elaboração do Plano Diretor Participativo, projetos de exposições de arte pública e inventário dos doces de Pelotas proposto pelo CDL e pela Secult.
Tudo isso foi uma verba à parte dos recursos para restauração e ainda incluiu um curso de qualificação profissional de nível básico para ofícios de restauro em conservação do patrimônio histórico e arquitetônico. Feito em parceria com o Instituto Federal Sul-Rio-grandense (IF-SUL), é a mão de obra oriunda deste curso que possibilita as manutenções específicas que são feitas hoje nestes imóveis. "Após o Monumenta, Pelotas é considerada referência em preservação", afirma o secretário e revela que o sistema de proteção do patrimônio local virou consultoria para o município de Curitiba.
Números das ações do Monumenta em Pelotas
- R$ 11.662.692 para recuperação
- R$ 8.375.527,82 verbas federais
- R$ 3.287.164,30 verbas municipais
- R$ 503.701,96 para recuperação do Casarão 2 (5 de janeiro de 2004 até 20 de outubro de 2005)
- R$ 846.000 para as outras ações
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