Os versos dos irmãos pelotenses Kleiton e Kledir brincam com o imaginário de uma geração que da época de ouro do sistema ferroviário só conheceu as ruínas. "Esse expresso vai a trote, mais parece um pangaré." O dia a dia não era fácil: "Eu tenho pena de quem segue pra Bagé". A brincadeira que faz referência à Rede Ferroviária Federal foi gravada em 1980, 16 anos antes do encerramento das atividades da Estação Férrea de Pelotas. Ela que passava, a partir de então, de símbolo do desenvolvimento municipal a mais um, entre tantos outros prédios, entregue à ação severa do tempo. E assim continuaria por quase duas décadas, até hoje, quando reabre as portas de sua imponente estrutura, após dois anos de obras, para novamente servir à cidade.

O retorno do prédio da Estação Férrea ao cenário histórico pelotense vem acompanhado ainda de uma ressignificação de sentidos. O símbolo das idas e vindas, das despedidas e reencontros, hoje assume uma nova função. A partir da conclusão da obra, o espaço abrigará o órgão de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon), o Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest), um memorial da história férrea pelotense e ainda um posto da Guarda Municipal. Os dois primeiros, sem sede fixa até então, passarão a ocupar o prédio nos primeiros meses de 2015.

A espera pela conclusão da obra foi grande. As intervenções previstas pela equipe da Secretaria de Cultura (Secult) não mensuravam o grau de depredação que se encontrava a Estação Férrea. A arquiteta da Secult Laura Zambrano explica que os prazos precisaram ser prolongados e a verba aumentada quando se teve dimensão dos serviços que a estrutura pedia. Devido ao tempo que permaneceu sem manutenção, os cupins alastraram-se pelo telhado, que precisou ser completamente trocado. No seu interior estavam colchões, vestígios de fogueiras e até mesmo dois possíveis focos de incêndio provocados por pessoas que ali se abrigavam durante as noites. Além disso, muitos dos materiais acabaram sendo furtados e outros quebrados.

Devidamente finalizada, a obra promove o encontro entre o passado e o presente. O restauro da estrutura primária e a manutenção das cores que contemplam a memória daqueles que por ali transitaram até os anos 1990 convivem pacificamente com as necessidades urbanas contemporâneas. A instalação de um elevador e de recursos de acessibilidade, por exemplo, foi somada ao prédio. A engenheira da Secult Gisela Frattini, também uma das responsáveis pela execução da intervenção, ressalta que o maior desafio é equilibrar as exigências de uma legislação atual com a preservação histórica necessária nestes casos.

A nova casa do Procon e do Cerest abre espaço na rotina pelotense, buscando estimular o sentimento de pertencimento da comunidade para com ela. Na visão do titular da Secult, Giorgio Ronna, este é um dos principais ganhos com a finalização da intervenção. Algo que, como afirma Ronna, já é visto com abundância na cidade. A circulação significativa do pelotense pelo Centro Histórico, seja nos casarões, na biblioteca ou nos demais prédios que abrigam serviços atuais, indica que há uma valorização local que vai além da admiração intelectual pela história luxuosa da cidade. Trata-se de um vínculo reforçado pelo uso diário dos espaços. Para a vice-prefeita Paula Mascarenhas (PPS), é fortemente significativo ver um prédio que Pelotas viu deteriorar-se retornando para a paisagem local completamente recuperado. Os próximos passos, segundo Paula, são a revitalização do Largo de Portugal, espaço que abriga a estação, e a retirada do terminal de ônibus que se instalou na localidade.

Uma solenidade, marcada para a noite desta segunda-feira (15), deve anunciar oficialmente a conclusão das obras. A cantora, violonista e professora de Música Daniela Brizolara realizará uma apresentação musical a partir das 20h em um palco que será instalado no local especialmente para a ocasião.

Começa um novo capítulo
Ambos atendem à comunidade. De um lado, o suporte aos consumidores; do outro, o auxílio à classe trabalhadora. O Procon e o Cerest encontram, finalmente, uma sede própria após anos em busca de um espaço para o desenvolvimento e mesmo a ampliação dos seus serviços. No caso do órgão de defesa do consumidor, foram dez anos de espera; no do Cerest, cerca de 12.

Até o momento, o Procon atende no centro jurídico de Pelotas, em um espaço que, de acordo com o coordenador Jardel Oliveira, não é o adequado. Com a mudança, a expectativa é facilitar o acesso do consumidor ao órgão, já que o novo endereço é mais central do que o atual, na avenida Ferreira Viana. A transferência de endereço oficial deve ocorrer em janeiro, já que no momento estão sendo agilizados os trâmites, como a instalação de internet e das acomodações para funcionários e para a comunidade.

Apesar de clichê, como aponta a própria coordenadora do Cerest, Maristela Irazoqui, é difícil encontrar outra definição para a nova casa que não a de "um sonho que se torna realidade". Implantado em Pelotas em 2002, a necessidade de uma sede sempre foi colocada como essencial para o desenvolvimento de um serviço de qualidade pelo centro. Com a nova estrutura será possível adquirir novos equipamentos, mobília, computadores e, principalmente, ampliar o número de consultórios que passa de um para quatro. A previsão de Maristela é de que essa reorganização possa abrir espaço para a qualificação da equipe de multiprofissionais que atende atualmente os trabalhadores. Isto quer dizer que haverá a abertura uma análise completa do estado de saúde da pessoa que procura o Cerest, analisando desde o sintoma físico até a estrutura mental do trabalhador. No prédio novo, será instalado também um núcleo de epidemiologia, que hoje trabalha de forma não tão eficiente por falta de espaço adequado, com dados e pesquisas sobre os 28 municípios os quais o centro atinge. "Com estrutura se faz um trabalho muito melhor e voltando completamente para o protagonista das nossas ações, o trabalhador", diz.

De braços dados com o patrimônio
A iniciativa de intervir nos 1.487 metros quadrados do prédio da Estação Férrea nasceu e foi viabilizada pelas mãos do Procon. Ainda em 2007, o coordenador do órgão tomou conhecimento de uma multa que o Ministério Público Federal havia aplicado em uma operadora de telefonia no Rio Grande do Sul. Em contato como promotor responsável, Jardel Oliveira teve a ideia de usar a verba para a compra de uma sede para o órgão, já que esta quantia deveria ser aplicada na defesa do consumidor ou em ações nesse sentido. Com R$ 850 mil à disposição, que atualmente representam mais de R$ 1 milhão, surgiu, após muita procura, a ideia de revitalizar o prédio da estação e torná-lo a nova casa do serviço de defesa do consumidor. Em seguida, entrou o Cerest na parceria e foi levantada também a importância da colocação de um memorial da história férrea de Pelotas no espaço.

Foi assim que, em junho de 2012, as obras iniciaram. A reforma contou ainda com recursos federais, totalizando R$ 2.790.329,00 gastos para a plena restauração do espaço, e foi realizada pela Marsou Engenharia.


"Por que não joga esse museu no ferro-velho e compra logo um trem moderno japonês?"

O conselho dado nas últimas estrofes da mesma canção dos ilustres irmãos pelotenses do começo deste texto acabou, em parte, sendo seguido na cidade. Fora a compra de um moderno sistema férreo oriental, o transporte por ali foi encerrado e abandonado na cidade entre 1996 e 1998. Porém, em sua construção, a Estação Férrea não imaginou que viveria o fim dos seus tempos de glória.

A construção foi inaugurada em 2 de dezembro de 1884, no Largo de Portugal, para atender à linha ferroviária Rio Grande-Pelotas-Bagé, ligando o porto, o charque e o gado. Em pouco tempo, a sua implantação repercutiria de forma significativa no crescimento urbano de Pelotas, impulsionando, inclusive, a criação de uma rede viária interligando o restante da cidade à estação. Em 1930 a estrutura passaria por uma reforma, para a ampliação das aberturas do local.

A estação acabaria desativada em 1996, primeiramente para o transporte de passageiros; e abandonada, de forma definitiva, em janeiro de 1998. No entanto, mesmo sem o seu uso, os trilhos que muito trabalharam em conjunto com a estação, seguem sendo usados para a condução de cargas.

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